"Quanto eu peço?" é a pergunta difícil de quem avalia trabalhar para uma empresa de fora, e a mais fácil de responder mal: de um lado o número inventado, do outro a evasiva "depende do perfil". Ninguém de fora do seu caso sabe o seu número: valor de alocação é combinado por escrito, caso a caso.
Calibrar, dá. Um lado da conversa é público: o que o comprador paga. Com ele na mão, e sabendo o que fica no meio quando há intermediário, você chega à faixa que faz sentido pedir — e ao piso abaixo do qual não vale trocar o que já tem.
Comece pelo lado que é público
Não procure "quanto ganha um dev brasileiro em dólar". Procure quanto a empresa paga por um engenheiro alocado — o número que entra na fatura dela. A página de preços da HireBrazilDevs cobra US$ 3.500 por mês por um mid-level, US$ 4.900 por um sênior e US$ 6.400 por um tech lead.
A frase que separa este texto de um anúncio: esse é o preço ao cliente, com a margem do estúdio dentro — não é o que o engenheiro recebe. O valor do engenheiro é combinado por escrito para cada alocação e não é público. A utilidade dele é dar a ordem de grandeza do orçamento desse tipo de cliente.
As definições ao lado dos números valem tanto quanto eles, porque é por elas que você se localiza: mid-level são 3 a 5 anos entregando feature bem especificada sozinho; sênior, 6 a 10, dono de um serviço ponta a ponta e revisando código alheio; tech lead, 10 ou mais, definindo arquitetura. Pedir de tech lead sem o escopo de tech lead é pedir contra a definição publicada ao lado do preço.
A tabela de países é o teto da conversa
O comprador não compara você com o mercado brasileiro: compara país com país, numa tarde, e a tabela de custo por país deste site põe sete linhas em ordem de preço justamente para ele. Filipinas e Índia saem mais baratas que o Brasil, Argentina empata, México e Polônia saem mais caros, e a última linha é a contratação remota nos EUA. Um sênior brasileiro aparece entre US$ 4.000 e US$ 6.500 por mês; o americano remoto equivalente, entre US$ 13.000 e US$ 17.000 com encargos. Tudo lado do comprador, e faixas de mercado, não cotação.
Onde a conversa trava: um pedido acima do topo da faixa publicada precisa de motivo nomeável — stack escassa, domínio específico, histórico verificável — e generalista fica na parte de baixo. E o que você vende: ali o Brasil não é o mais barato, é o que compartilha o dia de trabalho com os EUA sem ninguém no turno da noite.
Quem está no meio muda o número
Três arranjos, três números pelo mesmo trabalho:
- Contrato direto com a empresa de fora. Não há margem no meio — e também não há ninguém no meio: a venda, o contrato, a cobrança atrasada e o risco de o cliente não pagar são seus.
- Estúdio ou intermediário que te aloca. Existe margem, por definição, e com ela você pede menos do que o cliente paga. A pergunta certa não é "quanto eles ficam", é o que a margem compra. Por escrito: o pagamento é devido na data mesmo que o cliente não tenha pago? Mês parcial é proporcional? Qual o aviso prévio, dos dois lados? Há folga remunerada? No contrato do engenheiro daqui, público em português: sim, sim, 30 dias dos dois lados (sem aviso nos primeiros 30 dias de alocação), e feriados nacionais mais até 15 dias úteis a cada 12 meses, combinados com duas semanas de antecedência.
- Marketplace por hora. Você vira uma linha numa lista ordenada por preço por hora: serve para projeto curto, e em tempo integral te compara com quem não está.
Para triangular antes de dizer um número, leia quem publica: anúncios americanos de vaga remota com faixa, Levels.fyi e Glassdoor para salário de funcionário, e intermediários como Toptal, Turing, Revelo e Strider. Em cada número, marque: isto é o que o comprador paga ou o que o dev recebe?
Peça em dólar, e peça por mês
Pedir em real transfere o risco de câmbio para você, de graça: se o dólar cai, quem te contrata passa a pagar menos pela mesma coisa. Pedir em dólar deixa a variação onde ela nasceu. O que ela muda é quanto cai em real a cada mês — cotação do dia da conversão, spread, tarifa —, e isso está em outro texto daqui, sobre receber em dólar como PJ.
E peça por mês, não por hora. Posição por mês é como o preço deste site é publicado; valor por hora te põe na prateleira do freelancer e convida à pergunta "e se forem 20 horas?". Quem quiser por hora faz a conta: o preço publicado traz o equivalente, o mensal dividido por 160. O mensal também obriga a combinar o que o valor por hora esconde: a janela de horário (por escrito, e que pode não ser americana — o cliente pode estar em Londres), o mês parcial e a folga.
O erro que arruína a conta: olhar o bruto
Um erro de comparação arruína a conta antes do câmbio: o sênior que já tem emprego olha o bruto da carteira, converte pela cotação do dia e compara. Os dois números estão errados.
Do lado CLT, o emprego custa mais do que o bruto do holerite: décimo terceiro, férias com o terço constitucional, FGTS, aviso e rescisão, plano de saúde, VR ou VA, equipamento, e os encargos que o empregador paga sem passar por você. Do lado PJ, o valor combinado não é líquido: saem os tributos da sua empresa, a contabilidade, o seu plano, o seu equipamento e o custo do câmbio — e não existe FGTS nem rescisão.
Nenhuma alíquota aparece aqui, de propósito: depende do seu regime, do seu município e do seu faturamento, e número de internet nesse assunto erra por anos. O trabalho certo é meia hora com o seu contador, uma pergunta de cada lado: quanto custa por mês, cheio, o pacote de hoje? e quanto sobra, líquido, de um valor mensal X na minha PJ?
Monte três números antes de abrir a boca
- O piso. O mensal abaixo do qual não vale trocar o que você tem, líquido, contra o custo cheio do pacote de hoje. Só seu.
- O pedido. Ancorado na faixa do lado do comprador e no nível que você defende por escopo, não por tempo de carteira. Um número, em dólar, por mês.
- O que não é dinheiro. Janela de horário, exclusividade, aviso prévio, folga, mês parcial, e o pagamento devido na data independentemente do cliente. Tem valor, e desaparece quando só se fala de valor.
Onde isto não serve para você
Se o plano é maximizar o valor por hora juntando dois ou três contratos, alocação dedicada é o contrário: a exclusividade está no contrato e é o que o cliente compra. Se você quer carteira assinada, FGTS e férias do regime CLT, o modelo não é esse, e a página que explica a alocação é explícita. Se precisa saber em janeiro quanto entra em dezembro, moeda estrangeira vai te incomodar todo mês. E se o inglês ainda não dá para discordar de um gerente americano com polidez, o gargalo não é o número.
Uma franqueza final: nada garante que exista alocação aberta no dia em que você perguntar. O que existe é o lado público da conta, e ele basta para parar de perguntar a estranhos quanto pedir.
Isto não é orientação jurídica nem contábil. Regime, alíquota, enquadramento e câmbio são assunto do seu contador e do seu banco — converse com eles antes de assinar.